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segunda-feira, 29 de maio de 2017

Redescobrir o Porto

Já vos contei aqui que fiz um Workshop de Escrita de viagens com o Filipe Morato Gomes, do Alma de Viajante, nos últimos fins-de-semana. Foi uma experiência mesmo gira, um grupo bastante heterogéneo e simpático. Gostei muito. E como resultado final de três dias a aprender coisas giras escrevi uma crónica sobre o Porto, que hoje partilho convosco, digam lá o que acharam do resultado final. Posso atirar tudo pela janela, pôr pernas ao caminho para dar uma volta ao mundo e contar-vos os detalhes, ou mais vale ficar quietinha no meu canto que isto não tem graça nenhuma? Se calhar nem oito nem oitenta, mas gostava de ouvir a vossa opinião. Comentem à vontade :)

"O Filipe pergunta-me se consigo olhar o Porto com Alma de Viajante. Num domingo de Maio, a minha cidade está mesmo a pedir que a redescubra mas ao primeiro olhar não me sinto capaz de o fazer.
Como em todos os outros domingos dos últimos anos os turistas passam apressados de mapa na mão a falar uma língua que às vezes entendo outras nem por isso. As feirinhas de rua estão cada vez mais giras e para além das bugigangas de sempre veem-se artistas a sério, tento meter conversa com os que mais me chamam a atenção. Ao contrário da jovem vendedora, de uma série de pinturas tratadas em computador - onde reconheço a Casa da Música que vejo pela janela - que não me dá muito mais conversa do que a necessária para me prestar todas as informações sobre a obra, o senhor já reformado que vende "portas e janelas", réplicas a escala reduzida onde vejo todos os detalhes dos azulejos que compõem as ruas do Porto ou os buracos das cortinas que se vêm por trás, está pronto para conversar a tarde toda - tenha eu disponibilidade e vontade - e pergunta "Nasceu onde? Em Vila Praia de Âncora? Então não traz cá o Quim Barreiros?". Rio-me, para não lhe dizer que prefiro ouvir outra música.
Talvez a música que soa numa das esplanadas da Ribeira, a zona mais turística da cidade, mas onde volto sempre, e onde nessa tarde ouço um brasileiro cantar com os seus conterrâneos, que nesse momento são provavelmente o maior número de falantes de português - não só no mundo, mas na Ribeira -, e encantar todos os outros turistas que passam, param, filmam, e saem de lá contagiados com a alegria que o "açúcar" dá à língua de Camões. Sento-me numa esplanada a ver os barcos ao fundo no rio, que passam como em todos os outros dias, desde há séculos atrás, as crianças a saltitar em cuecas e cheias de vontade de se atirar ao Douro. Tudo parece fluir com normalidade numa cidade que se habituou a conviver com as enchentes turísticas e penso se no dia seguinte vou conseguir distinguir as imagens daquela tarde com as de todas as outras tardes em que passei por aqui. E como que a dar-me resposta, o speaker da esplanada onde me sento anuncia uma surpresa e de repente há um pedido de casamento bem na minha frente. A noiva diz que sim, e estou certa de que a fotografia da praxe, com a ponte D. Luís e a vista para as Caves do Vinho do Porto ao fundo vai estar um dia numa moldura da sala.
Maior surpresa ou incredulidade que a desta noiva, provavelmente só a minha, quando entro no antigo edifício da Cadeia da Relação e descubro que por detrás daquelas paredes em tons de amarelo onde tantas vezes ouvi a Serenata ou vi as crianças jogar à bola em mais uma tarde de domingo, há um edifício incrível, antigo e bem preservado, agora transformado em Centro Português da Fotografia com diversas exposições gratuitas ao longo ano e que já serviu de inspiração a muitos. Pela janela da cela onde esteve preso o Camilo vejo a minha cidade lá em baixo, a Sé e o Douro, e percebo que sim, tenho resposta para o Filipe e material para uma crónica. É sempre possível viajar sem sair de casa e redescobrir a nossa cidade.

Inês Miranda, Maio 2017"
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